segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Manifesto sobre a esquerda-caviar

 Quando alguém te chama assim, esta pessoa está amedrontada, mas também revoltada pelo sentimento de uma suposta traição de classe



"Não, eu não vim aqui defender as ovas de peixes. Isso seria tão ridículo como insultuoso. Mas sim, eu vim aqui reivindicar a abundância, a distribuição de renda e o direito ao prazer.
O termo “esquerda caviar”, ao tentar associar a esquerda ao voto de pobreza, não é apenas intelectualmente falho, como também é moralmente desonesto. A expressão procura vender a ideia de que a esquerda deveria ser paupérrima, uma vez que defende um regime igualmente paupérrimo. Dupla mentira.
Para quem orquestra essa ideia, o objetivo é requentar velhas mitologias que procuram espalhar o medo, conter a identificação com o socialismo e deslegitimar seus integrantes por meio da acusação de um comportamento contraditório. Quando alguém te chama de esquerda-caviar, esta pessoa está amedrontada, mas também revoltada pelo sentimento de uma suposta traição de classe.
Para começar, eu gostaria de retomar uma frase citei no passado, a qual causou alvoroço entre alguns setores da direta: "a pobreza é uma invenção do capitalismo". Acrescentei, ironicamente, que, se essa afirmação é válida, faz todo o sentido ter uma direita-coxinha e uma esquerda-caviar. Não é de admirar que, após esse tipo de declaração, além do cliché de me mandar para Cuba, tive que enfrentar uma verdadeira caça às bruxas, com direito a telefonemas em meu local trabalho, caixa de e-mail lotada de insultos, vida pessoal vasculhada, fotos expostas, ameaça de estupro e o sincero desejo de que eu morresse – pobre e podre – na Coréia do Norte. Foi aí que entendi que não se toca em pontos sensíveis impunemente...
Ao associar a pobreza ao capitalismo, eu não apenas questionava o monopólio do deleiteque a direita usa como trunfo simbólico para vender o sonho da distinção (a cenourinha inalcançável que se coloca lá na frente na corrida de classes) – , como também lembrava que esse sonho, inescapavelmente, apenas se concretizaria entre muitos poucos. Afinal, a pobreza – para qual toda a esquerda deveria sacramentar seus votos –, é uma condição necessária da desigualdade estrutural do capitalismo global: a miséria de muitos sustenta a riqueza de poucos.
Teria sido interessante, àquela altura, ter repassado a lição que aprendemos na oitava série: a de que o bem-estar dos países ricos foi construído sobre espoliação violenta – física e psicologicamente – de continentes inteiros, de povos nativos que desconheciam a miséria e que se mantinham por meio de regimes autossustentáveis e autorregulados. Mesmo com o fim do colonialismo, as formas de dependência econômica e cultural continuaram agindo para manter um aparato de intervenção sobre a pobreza que, em última instância, visa o seu controle disciplinar e a sua manutenção. Infelizmente, não há nenhuma previsão de que o mundo esteja mudando positivamente neste sentido. Ao que tudo indica, estamos adentrando em um dos piores cenários já produzidos pelo capitalismo global.
O resultado desse sistema que se regenera e se renova e é o aumento da produção da riqueza e a pobreza concomitantemente. O mundo nunca foi “tão rico” e desigual. Segundo o último relatório da Credit Suisse, nos últimos dez anos, a riqueza global dobrou (USD 263 trilhões). O problema é que a desigualdade também é recorde: 1% da população mundial detém praticamente 50% dessa riqueza. Essa fotografia que vai ao encontro do badalado relatório da Oxfam de 2013, que constatou que 85 famílias detêm a mesma renda que 3,5 bilhões de pessoas, isto é, a metade da população mundial.
Temos, hoje, evidências poderosas de que a desigualdade é extrema e crescente. O modelo vigente é duplamente falho, seja porque é insustentável e destrói os recursos naturais do planeta, seja porque é incapaz de lidar com a miséria que ele mesmo produziu. Mas há quem prefira viver na fantasia dessa riqueza virtual. Ao contrário do argumento liberal – de que a riqueza produzida gera mais riqueza em forma de crescimento econômico, trabalho e oportunidades – o capital não tem retornado ao mercado, mas tem se concentrado nos cofres privados de poucas famílias, o que nos leva a uma forma de capitalismo patrimonial, como mostra o economista Thomas Piketty.
Em vez de promover uma apologia à pobreza, a esquerda reivindica a distribuição de riqueza e o direito a abundância, que é gerada tanto pelo trabalho coletivo tanto pela própria natureza.
O imaginário da esquerda “franciscana” é totalmente equivocado porque vai de encontro ao o próprio princípio da luta de classes: de que é preciso encontrar um equilíbrio entre os poucos que têm muito e os muitos que têm pouco. O direito ao prazer deve ser uma bandeira central no socialismo também porque isso vai contra a cultura cristã ocidental que valoriza o sofrimento, a punição e a culpa, resultando na subordinação do mundo material ao imaterial. A luta é pela possibilidade de corpos mais livres, por experiências sensoriais diversas e por menos biopoder. O problema, portanto, não é – nem deve ser o desfrute da vida, dos sabores, dos cheiros, das texturas, dos lugares. O problema é justamente a privatização dos prazeres.
Para alguns, o direito ao deleite tem sido a bandeira do lulismo, que se caracteriza pela a inclusão dos setores populares na sociedade de consumo. Para mim, trata-se de coisas diferentes. Esse modelo de consumo desenfreado que se baseia na acumulação de bens é insustentável. Eu me alio aos movimentos de compartilhamento e aos teóricos do decrescimento econômico, pois acredito que seja possível perseguir de estilos de vida mais humanos e recíprocos em economias de dádivas, que possam culminar em plenitude física e material.
Dito tudo isso, por fim, parece-me que diante de um mundo em que 85 famílias concentram a metade de renda global, preocupar-se com a marca do computador de Leonardo Sakamoto ou com o restaurante que Gregório Duvivier frequenta é um ato não apenas de mesquinharia, mas também de covardia intelectual. Afinal, é preciso muita coragem para imaginar e lutar por um mundo fora de nossa casinha e zona de conforto. Grandeza e ousadia epistêmicas são qualidades necessárias para enfrentar o monstro gigante que detém uma centena de trilhões de dólares."

por Profa Dra Rosana Pinheiro Machado (antropóloga)

Fonte: http://www.cartacapital.com.br/sociedade/manifesto-sobre-a-esquerda-caviar-689.html?utm_content=buffer0d272&utm_medium=social&utm_source=twitter.com&utm_campaign=buffer

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Matéria no Modices_ Antropologia vai revolucionar a moda!



A Antropologia do Consumo faz a ponte entre as marcas e seus consumidores. É através de suas técnicas que você vai perceber o que mais importa de verdade para seu cliente na hora de escolher um produto ou serviço. É como uma marca que percebe que as suas clientes agora andam mais de bicicleta e skate e usa essa informação para ajudar a equipe de estilo a desenvolver peças que estejam de acordo com esse novo lifestyle (que tenham mais liberdade de movimentos, ou tecidos que amassam menos, por exemplo).
É essa a grande revolução da modabuscar inspiração nas pessoas reais, aquelas que consomem a sua marca de verdade e não (só) aquele ideal inspirado em recortes de revista ou prints de blogs de moda.
Parece muito óbvio, né? Mas não é. Quer exemplo? Pense, que sentido faz encher as lojas de roupinhas frescas de verão no auge do inverno? Por que o “calendário da moda” (coleções e chegada das roupas às lojas) é tão diferente do calendário da vida real?
Sempre questionei isso, amigas me questionavam isso e toda vez que questionei empresários suas justificativas eram sempre tediosas e nunca tinham a ver com os clientes. Mas agora, eles vão precisar repensar. O jeito de consumir moda mudou, a consumidora mudou e quem não se adequar a essa nova realidade vai sofrer o peso do processo evolutivo (ou seja, se extinguir).

Adorei, mas onde eu estudo isso?
Nessa próxima quarta-feira, dia 29, vai rolar um curso com a minha super professora Hilaine Yaccoub, na Vila Madalena em São Paulo. É um dia intenso onde ela vai ensinar como aplicar os recursos da antropologia para estruturar insights criativos para estratégias de marketing e desenvolvimento de produtos. Esse é um curso excelente não só para marketeiros, mas também para estilistas e produtores de conteúdo (alô bloggers e social medias). Para saber mais informações é só acessar o site da ASBPM.

Aqui no Rio tem o Culture Lab, o curso que eu fiz, da Hilaine (que nem falei, mas é mestre e doutoranda no assunto e é especialista na classe C) em parceria com a incrível pesquisadora de tendências Carol Althaller (entrevistei ela no post sobre coolhunter, lembra?). O curso foi fantástico (tinha gente de moda, construtora, energia elétrica, publicidade…) e me fez pensar pra caramba (o que pra mim define se um curso é bom de fato) e deve abrir novas turmas em breve :)
Pra quem já quer comprar uns livros sobre o assunto pode começar com O ponto de virada do Malcom Madwell e o Cultura, Consumo e Identidade da Lívia Barbosa. O blog da Hilaine reuné vários artigos sobre o tema e, claro, use e abuse do nosso bff Google ;)

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Espero que vocês tenham gostado do post :) E quem quiser trocar mais ideias sobre o tema (e toda essa minha viagem) aqui nos comentários, vou adorar, viu? ;D

PARA SE CADASTRAR PARA A PRÓXIMA TURMA DO CULTURELAB QUE DEVERÁ OCORRER EM JANEIRO EDIÇÃO SUMMER escreve para culturelab.news@gmail.com

Fonte: http://modices.com.br/moda/antropologia-do-consumo/

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Curso Cultural Lens - Aplicação de recursos da Antropologia para estruturar insights em SP dia 29 de outubro

Mais informações acesse: http://www.sbpm.org.br/cursos_exibe.asp?id_curso=49

Why do academics dress so badly? (Answer: they are too happy

 by
The Guardian,

Paisley body warmers? Cornish pasty shoes? ‘Amusing’ cufflinks? Fortunately, Marx can explain our crimes of fashion
Scruffy academics
The opposite of smart casual? Scruffy formal, and the default look of many an academic. Photograph: Murdo Macleod for the Guardian
“I do like your shirt,” said a female colleague. “And your suit.” She then paused before adding: “But what I particularly like is that your shirt goes with your suit. So rare for academics.” Sadly the observation is well made.
A few years ago another colleague read out an invitation to an event where the dress code was “smart casual”. What would be the opposite, he asked? It struck us both at once: “scruffy formal”. And what would that describe? Easy. A male professor, not too far from retirement, going to a university function, wearing clothes that have aged even faster than their owner.
Here is how you dress for such an event. You go to your wardrobe and randomly pull out a garment called a “pair of trousers”, another called “a shirt”, another called “a jacket”, and another called “a tie”. Then you put them on. Then you look in the mirror to make sure that you have put each in roughly the right place. The end.
In high society, the inequity of the difference between male and female dress codes has often been noted. All a man needs is a dinner suit and a servant to sponge off the soup stains between outings. A woman needs a different dress for each event, for fear of being spotted in the same thing twice. But does a similar inequality apply in academic circles? From time to time students do mention a lecturer’s clothes in questionnaires. Sometimes the comments are positive but irony can’t be far from the surface. As far as I recall students are more cutting about male failures than female, including a diagram I once saw on an evaluation form to illustrate the quilted paisley-patterned “body warmer” worn by the lecturer.
Should academics really worry about how they look? Some, it seems, plainly don’t, but a colleague told me it probably takes her as long to decide what to wear to project her “I don’t care” look, as it does others who dress to impress. This, possibly, does mark a gender split. Men can just put on the same clothes every day until the trousers run away on their own in protest when you try to pick them up off the floor.
In The Wealth of Nations, Adam Smith pointed out that although there were other, cheaper, ways of keeping warm and covering your top half, no man could “appear in public without shame” in the late 18th century unless he was wearing a linen shirt. Is there an equivalent in today’s senior common room? If there is, I haven’t noticed, apart, perhaps, from those shoes that look like Cornish pasties. But cultures differ and no doubt the mathematicians have different rules from those in the drama department.
Still, there are some tricks of the trade. If you want to be obstructive in a meeting it is a very good idea to be the best-dressed person in the room, so that you come over more like a management consultant than a 60s throwback. For a man, cufflinks help, though please avoid anything that is meant to be amusing. And if they have the university crest on them everyone will know that you are playing a game. For a woman, a Hermès scarf should be enough to swing the vote.
If it is true that academics dress badly then I think Karl Marx explains why. In his Economic and Philosophical Manuscripts of 1844, Marx explored the idea of “alienated labour”. He was troubled by the fact that in the emerging capitalism of his day, work, especially on the production line, had been de-skilled to the point where the labourer exercised none of his or her distinctively human characteristics in the workplace, and thus was reduced to “an abstract activity and a stomach”. What is one to do under such miserable conditions? Well, Marx observed, we take solace in our merely “animal functions”, which include “eating, drinking, procreating and … dressing up”. There we have it. Academics dress badly because we are so fulfilled in our work.
Jonathan Wolff is professor of philosophy at University College London and dean of arts and humanities
• This article was amended on 21 October 2014 to correct the warn/worn homophone.
fonte: http://www.theguardian.com/education/2014/oct/21/why-do-academics-dress-so-badly

sábado, 11 de outubro de 2014

Popularização de celulares revoluciona classes C, D e E

Popularização de celulares revoluciona classes C, D e E

0_onu RIO — Um passado sem rosto e sem rastro transformou a figura da mãe numa pálida lembrança. E levou consigo a imagem da menina Camila, ex-moradora de rua, sem deixar na adulta a certeza de como era quando criança. Com a morte da mãe no parto do oitavo irmão, há nove anos, depois de peregrinar com os sete irmãos pelas ruas de diversos bairros do Rio, ela ganhou uma casa. Foi morar com a tia, em Duque de Caxias. Cada irmão seguiu para viver com um parente.
A história da família Gomes, até a geração de Camila Claudia, hoje com 21 anos, é apenas oral. Não há um único registro fotográfico dessa vida nômade. Nem fotos, nem documentos. Camila não tem certidão de nascimento, o que impede o acesso aos direitos mais elementares. E não se lembra de ter visto fotos da mãe.
Uma aflição latente ficou de herança. Os nascimentos de Camille, de 2 anos, e Sofia, de 5 meses, trouxeram um novo desejo à vida da menina sem foto. Há pouco menos de dois anos, ela comprou um celular com câmera, exclusivamente para fotografar a primeira filha.
Camila tem a chance agora de deixar impressa sua passagem pelo mundo. Ela ilustra farta variedade de estatísticas que apontam para o consumo crescente de celulares e câmeras digitais no país, instrumentos também de inclusão. Nos últimos três anos, o item de consumo que mais cresceu no Brasil foi a câmera digital (de 20% para 35%), indicam dados da consultoria Kantar Worldpanel, divulgados em setembro. Um estudo da Fecomércio do ano passado mostra que, de 2003 a 2009, o gasto com celular já havia aumentado 63,6% em todas as classes sociais. Na E, chegou a 312%.
Soma-se a estes um outro dado, e a equação se completa: cerca de 66% dos brasileiros usam o celular para tirar fotografias, segundo pesquisa do Instituto Data Popular colhida este ano.
A democratização do acesso se consolidou, confirma a assessora econômica da Fecomércio-SP, Kelly Carvalho. A oferta maior de crédito, a ascensão das classes C, D e E, e a popularização irreversível da internet são agentes dessa revolução nos costumes:
— Hoje é quase impossível imaginar alguém que não tenha acesso a isso.
A antropóloga Hilaine Yaccoub, uma das autoras do blog Consumoteca, que analisa hábitos de consumo das classes C, D e E, atesta que estamos diante de novos tempos, moldados pela democratização do acesso ao registro de imagens. Tempos em que as classes populares deixaram de ser apenas o objeto fotografado (e, mesmo assim, discretamente) e tornaram-se também agentes desse universo pictórico: são produtores, em escala crescente, de imagens de seu cotidiano.
— A história oral da vida das famílias passa a ter um registro. As fotografias são uma narrativa, uma forma de contar a própria vida. Sempre quem tirava as fotos era gente de fora desse grupo social mais popular. Agora são eles falando e retratando a si mesmos. Antes, o processo era mais caro e mais complexo. Agora, é uma possibilidade de registros de descobertas. Muitas dessas descobertas são relacionadas a consumo, sabores, viagens — ressalta Hilaine.
Esse registro cotidiano era impensável em outros tempos. Antes da fotografia, no século XIX, apenas os muito ricos conseguiam pagar pelo registro, em pintura, de seus retratos.
— O homem comum não tinha esse acesso. Quando a fotografia surgiu, foi a oportunidade de a burguesia emergente ter acesso a um tipo de imagem de si mesmo que até então só a aristocracia fazia — narra o pesquisador e fotógrafo Pedro Karp Vasquez.
Enquanto comprava o celular, a prestação, Camila Claudia buscava um jeito de se registrar formalmente. Chegou a procurar em quatro cartórios de Duque de Caxias, sem o menor indício do lugar onde nascera. Ela diz que sabe seu nome porque a tia assim contou. Mas não consegue provar sua existência em nenhuma instância oficial. Enfrentou seu maior drama quando Camille nasceu, numa maternidade em Caxias: foi impedida de sair do hospital, porque não tinha como registrar a filha. Conseguiu uma autorização provisória, mas teria que providenciar os documentos. Antes disso, deixou a cidade e mudou-se para um casebre de três cômodos, na Gamboa.
Notebook para guardar fotos das filhas
A agonia se repetiu com o nascimento de Sofia. E ela se comprometeu novamente a providenciar os documentos. Antes disso, comprou, com a ajuda do marido, que ensaca farinha em um moinho, um notebook de segunda mão, cuja única função é guardar as fotos que faz das filhas. Camila agora espera o resultado de um processo aberto pela Defensoria Pública do Rio para conseguir o registro civil. E abrir caminho para o das filhas.
Camille e a irmã são fotografadas quase todos os dias em casa.
— Aqui é ela fazendo pose, ela adora ser fotografada. Ela vai poder mostrar para os filhos — exibe Camila, enquanto passa as fotos no celular. — Aqui é a Sofia, internada com bronquiolite — completa.
O registro fotográfico, para a psicóloga Maria Tereza Maldonado, ajuda na construção de uma identidade. É uma maneira de revisitar um museu pessoal.
— É uma prova concreta da existência. Muito da nossa memória vai para o arquivo do inconsciente, que pode ser revisitado nas fotografias. Isso tem um forte significado na construção da identidade.
O acesso a esse registro fotográfico alcança pessoas que não tinham essa possibilidade. Abre-se assim um leque fantástico no campo emocional. Os momentos mais triviais são fotografados — analisa.
A aposentada Maria Eunice Franco da Conceição, de 53 anos, hoje registra detalhes prosaicos de sua vida com a euforia da criança que não teve chance de deixar uma única imagem sua para o futuro. Criada em Feira de Santana, cidade agreste a 107 quilômetros de Salvador, na Bahia, Eunice lembra poeticamente de uma infância sem glamour ou brinquedos. Tem uma memória fotográfica dos dissabores vividos naquele chão de terra batida, dos sonhos que tinha sobre um colchão de capim. A primeira foto de si mesma foi a da carteira de trabalho. Depois veio a que aparece grávida da filha, Taís Angélica, hoje com 23 anos. Maria Eunice já tinha 30. No ano passado, ela tornou-se uma das alunas do curso de Fotografia Social organizado pela UniSuam e pela Prefeitura do Rio no Complexo do Alemão, onde mora.
— Eu não me lembro de qualquer fotografia. Mas me lembro da imagem de um lugar vago, muita terra seca, vermelha, o sol tremia, eu de pezinhos no chão, magrinha, com uma lata d’água na cabeça — conta Maria Eunice, que, com os cinco irmãos, foi abandonada pela mãe dos oito aos 12 anos.
Do pai, não ficou imagem concreta alguma. Apenas uma vaga recordação:
— Ele era mau, coloquei isso na minha mente, aí eu não me lembro dele. Sei que era alto, sarará. Me recordo do vestido que usei no enterro dele, branco com bolinhas pretas. E esse vestido acabou se tornando o de todas as festas. Era o único que eu tinha.
A mãe, Aldair Franco da Conceição, de 73 anos, que tinha se mudado para o Rio, voltou a criar os filhos depois da morte do ex-marido, quando Maria Eunice tinha 12 anos. Dona Aldair é o foco predileto das fotos da filha. Elas organizam uma intensa agenda de passeios, tudo documentado em fotos. A tecnologia ainda assusta. Dona Aldair só vê as imagens em papel. Eunice também prefere o acervo à moda antiga.
Fonte: http://oglobo.globo.com/tecnologia

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Culturelab Tendências e Consumo é tema de reportagem no Jornal O Dia




Eu e Carol Althaller estamos esperando vocês, ainda há vagas! Cola com a gente! 

No Rio... mais informações contato@studio512.com.br

Começa segunda feira dia 13/outubro. 4 encontros (seg e quartas) 12h aula, certificado e coffebreak. Delicia!


quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Culturelab no Mundo do Marketing: 7 Tendências de comportamento da nova geração

7 tendências de comportamento da nova geração

Busca pela paz interior, experiências que tirem o consumidor da realidade e debates em relação a temas relacionados a minorias são algumas das prioridades dos jovens

Por Renata Leite, do Mundo do Marketing | 08/10/2014

renata.leite@mundodomarketing.com.br

Os jovens, hoje, já não se contentam mais em comprar apenas um produto. Eles estão atrás de experiências que deem significado à aquisição e justifiquem, inclusive, o compartilhamento da vivência com amigos nas redes sociais. O consumo pelo consumo tende a diminuir cada vez mais nos próximos anos, o que representa um desafio e tanto para as marcas. Como conversar com essa nova geração? O primeiro passo é entender que as prioridades mudaram e se refletem em sete novas tendências de comportamento.
A primeira questão a ser levada em consideração é que o tempo desses consumidores se tornou mais caro. Após uma overdose de estímulos diretos das marcas, de conteúdos e de informações, as pessoas estão deixando um pouco de lado o multitasking, ao menos em determinados momentos do dia, para buscarem uma tranquilidade mental. O sentimento de cansaço as leva a cultivarem práticas que visam a uma paz interior e mais leveza na vida. Já não é qualquer oferta aquela capaz de ganhar a atenção dos jovens.
A tendência do “Mindfullness” fica clara na crescente busca por experiências espirituais, de ioga, de massagem, de SPA e de relaxamento. “As pessoas estão mais preocupadas com o bem-estar, com seus horários, em terem uma vida mais focada e regrada, que as permita dar mais atenção à família. Elas querem soluções mais certeiras, estão procurando um produto determinado e não uma multiplicidade de oportunidades”, resume Carol Althaller, pesquisadora de tendências especializada em comportamento do consumo, cultura urbana e comportamento jovem, em entrevista ao Mundo do Marketing.
Consumismo com os dias contatos?
Esses comportamentos se posicionam como opostos ao consumismo, mas não completamente, já que representam um alento no cotidiano ainda corrido. A meditação, por exemplo, é muito praticada em metrópoles como Nova York e Londres como uma forma de repor energias e aguentar o ritmo acelerado de vida. Não é um modelo alternativo ao sistema, mas uma forma de garantir a performance nele.
Algumas marcas já estão conseguindo tirar vantagem desse novo comportamento do consumidor, como a Selfridges, que criou em suas lojas o No Noise, espaço para quem busca momentos de paz e tranquilidade. A iniciativa promovida no início de 2013, ia além das vendas, convidando os consumidores a entrarem na “Sala do Silêncio”, encontrando a calma no meio da multidão. No local criado para o relaxamento, eram proibidos sapatos, celulares e outras distrações do Século XXI, que deveriam ser deixados em lockers disponíveis.
Há também produtos que estão sendo lançados já dentro dessa nova filosofia, como o Slow Cow, bebida que promove o efeito inverso dos energéticos. O produto chegou ao Brasil no fim do ano passado, com os jovens como público-alvo. Entre os slogans da bebida estão “Mais calma. Mais foco” e “Relaxa o nervo. A noite é longa”. O líquido azulado promete ajudar a manter a concentração e o desempenho no dia a dia atribulado, mas tudo com calma. Parece contraditório? Para a nova geração, não é.
Passagem para fora da realidade
Esse comportamento de busca pela tranquilidade leva à segunda tendência: as pessoas estão atrás de atividades em que as façam se desligar da realidade e viver algo completamente novo. A nova geração é de Experiential Seekers. “Os consumidores passam a ter valores pós-materialistas, em que buscam experiências em vez de produtos. As pessoas estão indo para o festival Burning Man, no meio do deserto, para passar uma semana trocando coisas. Elas querem ser protagonistas, fazer parte de algo maior e não apenas comprar um item”, analisa Carol.
Nessa tendência, entram os festivais de música como o Tomorrowland, que acontece pela primeira vez no Brasil em 2015 e teve todos os 180 mil ingressos vendidos em apenas três horas. Uma solução mais simples e acessível às marcas foi a iniciativa da Farm de montar uma feira no meio da Gávea, bairro da Zona Sul carioca, em que eram oferecidos obras de arte, quitutes e peças suas e de parceiras. A ação tirou suas consumidoras do lugar comum de adquirir roupas e acessórios da marca em sua loja para ganharem uma experiência muito mais rica e completa.
Um dos reflexos desse comportamento dos jovens está em sua preferência por fazer uma viagem do que uma compra. “A nova geração mira no que dá prazer e não no que dá dinheiro. Ele faz o que gosta, mesmo que ganhe menos e é por isso que ele tende a investir no que realmente provoque uma experiência diferenciada, como uma viagem. Ele está menos preocupado em comprar e mais em criar algo dele, mais autoral e econômico, simultaneamente. Isso nos leva à terceira tendência: a Cultura Maker”, diz a pesquisadora.
Cultura “maker”
Mais do que nunca, as marcas precisam apurar suas observações em relação ao que motiva os consumidores, à percepção deles em relação aos produtos, ao momento de compra e até ao de descarte. “O consumidor está num processo de empoderamento, no qual ele customiza e cria alternativas para os bens e serviços. Os usos podem ser completamente diferentes ao que a empresa idealizou no momento de produção”, diz a antropóloga do consumo Hilaine Yaccoub, em entrevista ao Mundo do Marketing.
Hilaine oferece, ao lado de Carol Althaller, o curso Culturelab Tendências e Consumo, que começa no próximo dia 13 no Studio 512, no Jardim Botânico, Rio de Janeiro. Em quatro aulas, a dupla buscará desconstruir certezas e estereótipos e entregar ferramentas para profissionais e empreendedores serem capazes de olhar e interpretar os detalhes da vida cotidiana. A ideia é que eles possam prever marolas que tendem a se tornar ondas e até tsunamis no futuro próximo.
Outro novo padrão comportamental que vem ganhando essa intensidade nos últimos tempos é o de cobrança por direitos e responsabilidades civis por parte das marcas. A quarta tendência passa pela habilidade de os consumidores trackearem e quantificarem tudo. Eles assumiram o controle e estão mais focados em suas compras. Os discursos vazios são mais fáceis de serem desmascarados em simples pesquisas em sites como o “Reclame Aqui”. As empresas que abraçam causas em prol de todos tendem a sair na frente nesse contexto, como é o caso do Meu Rio, rede que mobiliza cariocas e já conseguiu exercer pressões para a aprovação da Lei da Ficha Limpa e para a manutenção de um projeto social na comunidade do Cantagalo, cujo terreno seria cedido para uma empreiteira.
Dinheiro já não é tudo
Se por um lado a internet facilitou essa participação maior – basta lembrar das mobilizações de junho de 2013, que começaram nas redes sociais –, a web também abriu portas para as marcas, na quinta tendência das New Currencies. Ela alterou a forma de se pensar o varejo. As lojas passaram a vender a partir de um tweet, foto ou post com uma hashtag. E menções nas redes sociais podem valer como novas moedas de troca para, por exemplo, baixar livros ou músicas. O dinheiro já não impera mais como único protagonista das relações econômicas, principalmente quando fazer o que se gosta é o que importa e isso não necessariamente significa ganhar suficiente para comprar coisas.
A sexta tendência aponta para a emergência de debates de temas relacionados às desigualdades por padrões de etnias, nacionalidades, religiões e sexualidade. Esses assuntos estão sendo discutidos a todo momento, especialmente nas redes sociais, o que leva a mudanças de comportamento: homens estão se assumindo mais sensíveis, mulheres estão lutando por direitos iguais em diferentes esferas sociais, diversas composições familiares estão surgindo – e aparecendo em comerciais de TV.
Campanhas de marcas como a Diesel e a Barney’s já deram voz a questões feministas que estão sendo levantadas e defendidas nas redes sociais. Apropriar-se dessas temáticas e se posicionar em relação a elas pode ser interessante para as marcas desde que alguns cuidados sejam tomados. A Nestlé lançou recentemente um vídeo captado por uma câmera colocada nos seios de uma mulher. A peça mostrava como essa parte do corpo feminino é olhada por todo o tempo enquanto ela caminha pelas ruas.
Cuidado na execução
A causa era boa – o combate ao câncer de mama –, mas a execução levantou polêmica, especialmente entre feministas. “Pode fazer sentido para a marca falar com esse nicho e tratar do empoderamento da mulher, mas é preciso ter coerência. Dove aproveita o tema muito bem ao retratar a mulher comum em suas propagandas”, conta Carol.
A sétima tendência aponta para oportunidade para marcas que promovam ações que unam as pessoas. Diferentes grupos sociais querem dialogar entre si e estar junto. Existe uma busca por sociabilidade, aprendizado e lazer. Ocorrem movimentos como a volta dos karoquês, onde se pode chegar sozinho e rapidamente se juntar a um grupo e fazer amigos quase que instantaneamente, assim como a criação de novos espaços para saborear comida de qualidade, como os foodtrucks, nos quais já na fila é possível trocar ideias sobre o que irá pedir e criar laços.
Esse tipo de relação é potencializada pela internet, que favorece a formação de grupos que ganham dimensões de movimentos culturais. Um exemplo é o caso do Passinho Carioca, estilo de dança que começou a ser compartilhada na web e levou a encontros nas ruas para embates performáticos. O objetivo é estar junto, aprender e mostrar habilidades.
Fonte:

http://www.mundodomarketing.com.br/reportagens/comportamento-do-consumidor/31888/7-tendencias-de-comportamento-da-nova-geracao.html?utm_medium=e-mail&utm_source=mail2easy&utm_campaign=Newsletter+Dia