quarta-feira, 15 de julho de 2015

Dez truques da escrita num livro só por Karina Kushnir








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“Para superar a prosa acadêmica, primeiro você precisa superar a pose acadêmica.” (C. Wright Mills, cit. por Becker, em Truques da escrita, p.57)
O melhor livro sobre escrita no mundo das ciências sociais está finalmente publicado em português! Foi uma delícia ajudar na edição do Truques da escrita: para começar e terminar teses, livros e artigos, do Howard S. Becker (editora Zahar, 2015, tradução de Denise Bottmann, e minha revisão técnica). É sempre bom ter uma desculpa para trocar e-mails com o Howie. Ele é desafiador, irreverente e simpático, mas não bonzinho!
Ano passado ele estava bem pessimista com a vida acadêmica… A primeira versão de prefácio para a edição brasileira veio nessa onda… Pedi please, por favor, dá para animar um pouquinho? Os estudantes brasileiros estão precisando de boas vibrações para terminar seus textos, artigos e teses! (E nem estávamos no cenário atual… ) Então veio uma nova versão, bem no tom do restante do livro, cheia de ideias e análises séria-mas-divertidas sobre nosso modo de lidar com a escrita na academia.
Aí vão dez dicas que pincei dentre os muitos segredos e truques apresentados na primeira metade do livro:
1) Você não está sozinho — Isso parece título de seriado de suspense, mas traduz uma ideia forte e simples da obra do Becker: a maioria dos nossos problemas são coletivos e não individuais. Escrever também. Você senta diante do computador e pensa: “Oh, meu deus, por que tudo que eu escrevo é horrível?” Bem-vindo. Todo mundo senta ao computador e escreve seis frases horríveis antes de escrever uma que preste. Você, o professor titular e o aluno brilhante de doutorado também. Perde-se muito tempo sofrendo nessa “privacidade socialmente organizada” da escrita. Melhor aceitar que escrever mal ou truncado faz parte de escrever. Ponto.
2) Rascunho sem censura — Escreva uma primeira versão do seu texto sem se preocupar com o que os outros vão achar, sem medo de rirem de você, sem apagar antes de começar. Querer um texto claro e coerente de primeira é uma das principais armadilhas para acabar não tendo texto algum. Confie, escreva um “rascunho confuso”, pois o objetivo é “fazer descobertas” e não publicar imediatamente (p.40).
3) Uma, duas, três, quatro, cinco revisões — Corte tudo que não sobreviver à pergunta: “Isso é realmente necessário?” Divida frases longas, substitua a voz passiva, simplifique, clareie. É o dever-de-casa básico dos cursos de redação, diz Becker. O problema é que os cientistas sociais se acostumaram a ter que escrever em prazos muito curtos, acabando por aceitar como normais textos que precisariam de várias revisões para serem realmente bons.
4) Crítica-amiga — Nem todo colega é um bom leitor, mas cultivar um círculo de amigos-leitores para suas versões preliminares ajuda a “desemaranhar as ideias”, melhorar a linguagem, incorporar referências, incluir comparações e até cortar mais, se necessário! Quando eles reclamarem que a prosa está confusa, a culpa é sua. Volte ao ponto 3!
5) Complexidade com simplicidade — Muitas pessoas confundem redação empolada e complicada com sofisticação intelectual. Becker abomina. Citando C. Wright Mills, ele defende: é possível ser compreensível e complexo, ser claro e também profundo. Subterfúgios retóricos servem para afirmar superioridade de status por parte dos acadêmicos (e é nesse contexto que aparece a citação do Mills que abre o post), como o sotaque que denuncia uma classe social.
6) O fim no começo — Ao terminar de escrever, pegue o triunfante parágrafo final e coloque-o no início do texto! Ou seja, escreva a introdução por último, quando já tiver clareza de onde seu trabalho irá chegar. Começar de forma evasiva não ajuda. Apresentar de cara as conclusões e o mapa do percurso de sua pesquisa é uma forma mais eficiente de fazer o leitor se interessar. Becker dá um exemplo ótimo de como fazer isso na p.83.
7) Escrever para pensar — Escrever o rascunho-sem-censura da forma mais livre possível, até sem recorrer a notas de campo e bibliografia, te leva a entender as ideias que estão na sua cabeça. É uma maneira de dar uma “forma física” ao seu pensamento! (p.86) Depois, avaliando estas páginas, é o caso de se perguntar: as ideias se repetem?; se complementam?; são frágeis? quantas/quais são realmente importantes?
8) A ordem dos dados importa? — Não há uma maneira única e certa de apresentar os dados de uma pesquisa. Há várias, e quase sempre a conclusão é a mesma, não importando o modo como você organiza os temas. Mas recortar, empilhar, marcar, fichar, fazer diagramas… tudo isso pode ajudar a construir o mapa do seu texto.
9) Falar dos problemas resolve todos os problemas — Em vez de eliminar um problema, escreva sobre ele. Simples assim. Qualquer transtorno ou situação penosa te ensina “algo que vale a pena aprender” (p.96). Mas para falar dos seus problemas, você precisa reconhecê-los… e admitir que o Senhor-Todo-Certinho não existe: “O remédio é experimentar e ver por si mesmo que não dói.” (p.100)
10) O trabalho é seu e o mundo não acabou — O autor existe! Bem-vindo, Você.
“…a solução para escrever algo (…) é escrever mesmo assim e, ao terminar, descobrir que o mundo não se acabou. Uma maneira de fazer isso é iludir a si mesmo e se forçar a pensar que o que você está escrevendo não tem importância e não faz diferença nenhuma – uma carta para um velho amigo, talvez. (…) A única maneira de começar a nadar é entrando na água.” (p. 181)

Essas dez dicas são só das primeiras 100 páginas do livro! (Exceto a última, ok, não reparem.) Como o próprio Becker afirma que é “preguiçoso” e não gosta de trabalhar, também me sinto à vontade para parar no meio. Talvez eu faça um segundo post sobre o livro, talvez não… Falta tanta coisa boa: como editar, como enfrentar a bibliografia, como descobrir que o texto está pronto… Corram pra ler, é muito mais divertido do que eu escrevi!
**Aviso: é correto informar que o livro faz parte da Coleção Antropologia Social (dirigida por mim) e por isso recebo uma pequenina porcentagem das vendas. Mas não foi por isso que escrevi o post, claro.

E para quem se interessa pelo mundo acadêmico, o blog tem outros textos sobre minhas experiências… na escrita de projetos, nas defesas de tese, nas dores de não passar, na falta de tempo, no ensino de antropologia e desenho, no aprender a desescrever, nas agruras de ser doutoranda, na vida dos alunos, no sorriso do professor, nas lições da vida acadêmica e nas muitas saudades de Oxford 1, 2, 3 e 4!

* 5 Coisas impossivelmente-legais-bonitas-interessantes-hilárias-ou-dignas-de-nota da semana:
* Descobri o blog A Vida Pública da Sociologia, escrito pelo João Marcelo Maia. Li tudo de uma vez só, adorei e entupi o João com comentários. Um lugar para respirar ar fresco e inteligência na vida acadêmica!
* Médico: — Como vai o Antônio? Teve febre?
Eu: — Não, ao contrário. Estou até preocupada:  o termômetro não ultrapassa 35 graus e pouco.
Médico — Ah, é “febre de sapo”!
* Seriado Elementary (Netflix): o Sherlock Holmes moderno explica: “The danger with rule books, Watson, is that they offer the illusion that leading a moral life is a simple undertaking, that the world exists in black and white. Welcome to the greys!”
* Saiu em português um dos melhores livros autobiográficos que já li: Sobre a escrita: a arte em memórias, de Stephen King.
* Coincidência simpática: este é 80º post e o blog acaba de ultrapassar 80.000 visitas!

* Sobre o desenho: Fiz o desenho achando que ia ser um rascunho, mas acabou virando a versão final. Lápis e caneta nanquim 0.3 Unipin sobre o verso de um papel Canson Aquarelle. Aguadas com waterbrush Kuretake (large) e tintas de aquarela misturando cinzas com as cores Burn Sienna, French Ultramarine, Neutral Tint e um pouquinho de Turquoise para os azuis claros. No chão do escritório imaginário, os rabiscos são as letras e palavras que o Becker nos sugere cortar sem piedade. Quem sabe um dia eu não viro ilustradora de verdade e publico um desses na Piauí?

Fonte: https://karinakuschnir.wordpress.com/2015/07/15/dez-truques-da-escrita-num-livro-so/

sábado, 4 de julho de 2015

MANUAL PRÁTICO DA MULHER SOLTEIRA INDEPENDENTE: Episódio “Manifesto da solteirice: We can change it"



Muita gente aborda o com receio que um dia ele acabe caso a autora  arrume um namorado ou coisa que o valha. Amigues, vamos pensar para além de nomenclaturas e categorias classificatórias. Estamos vivendo uma era em que tudo está sendo ressignificado, novas famílias, novas formas de conjugalidade, relações afetivo-sexuais, está aí o políamos para nos provar que sim, tudo é possível, basta a gente querer e ter coragem para encarar o preconceito.

Este caso me faz lembrar de um livro que li ainda na época da graduação em ciências sociais chamado Iniciação à prática sociológica, um conjunto de artigos de vários autores que abordam de uma forma geral como a experiência vivida e a descontrução das realidades, suas categorias etc devem ser rompidas para o melhor entendimento da sociedade, e ainda mais, das mudanças culturais e econômicas pelas quais ela passa. Um dos autores que mais gosto neste livro é o francês Remi Lenoir que trata da realidade pré-contrruída e se utiliza da categoria “natural’ da idade para romper com nossas certezas acerca dos papeis e entendimentos que temos sobre cada faixa etária.

Estas categorias que tomamos como “naturais” têm implicações sociais muito sérias. A infância, por exemplo, e tudo que ela abarca é uma construção institucionalizada pelas instâncias sociais e estatais. Outras divisões de idade e suas atribuições também foram inventadas como “terceira idade”, “adolescência” e agora “pré-adolescência”. Eu não sei vocês amigues, mas eu não me lembro de ter tido isso ai não… pré-adolescência?

Juventude é outra categoria interessante para pensar, deixou de ser substantivo para ser adjetivo na sociedade contemporânea. E todos somos jovens e temos estilo de vida jovens independente da idade.

Estamos diante de uma complexidade inerente a sociedade que muda, que se transforma que se expressa de diferentes maneiras. Se Remi Lenoir tratou da idade, podemos muito bem falar do estado de SER SOLTEIRA INDEPENDENTE.

Oras… porque iremos endossar uma imposição ideológica dominante que nos diz ser quem somos? Pera aí. Solteira é sim um estado civil mas é ao entender do Manual é muito mais que isso, ganhou outras formas e é um estado de espírito, uma escolha, uma expressão de si mesma através de pequenos e grandes ações cotidianas.

A antropóloga Mirian Goldenberg escreveu sobre a Leila Diniz e como sua forma de agir quebrava paradigmas uma época terrível da ditadura onde o medo de “ser” imperava. Poizé…

Se toda mulher é meio Leila Diniz defendo que toda mulher tem sua parcela de mulher solteira independente mesmo que ela use uma aliança na mão esquerda, mesmo que ela tenha uma relação conjugal informal, mesmo que ela tenha casado apenas no Budismo  ou numa capela 24h em Las Vegas e tome para si este status.

Mulher Solteira Independente vive dentro de nós, é uma escolha, é uma forma de ser e ver as coisas de uma outra maneira. É se dar o vale night, discutir de igual com o seu namorado, negociar com seu filho e encontrar um meio termo que fique bom para todos os lados.

Ser solteira independente é sair com amigas para comprar, para ir ao teatro e ver o musical que seu marido odeia. É ir ao cinema sozinha, escolher em que irá gastar o dinheiro.

Ser solteira independente é tomar as rédeas da sua vida, agir com equilíbrio, saber se relacionar, com os vizinhos, com seus gatos, com seus cachorros, com seu marido, namorados, peguetes ou filhos. É desenvolver um estado de espírito um pouco individualista, - e qual o problema nisso? - onde de vez em quando é saudável se colocar como prioridade. EXPERIMENTA! E se o tempo for escasso o seu momento de mulher solteira independente pode ser aquela ida a manicure. Na escolha da cor do esmalte está você gata-garota no seu momento de cuidado pessoal se identificando com uma cor que revelará um gosto. Seu gosto.

Sejamos solteiras sempre, sejamos independente sempre, que a ousadia dos tempos de solteirice possam ser lembrados, revistos, adaptados em qualquer momento em que você esteja vivendo. Não se esqueça de você. Não se esqueça de tudo aquilo que foi vivendo e te fez feliz e você foi esvaziando a memória das coisas incríveis que adorava fazer e não sabe porque não faz mais.

Se o que te fazia feliz era sair pra bater papo com as amigas do colégio, resgate isso, leve todo mundo pra sua casa e tenha uma noite do pijama regada a espumantes e comidinhas. Resgate suas fotos de viagem, volte naquele lugar. Faça uma arrumação no armário e releia diários, ou romances que te fizeram abrir a mente em certo período da vida. Você encontrará surpresas certamente. E quem sabe você não fez anotações no rodapé deste livro heim?


CHEGA DE NOS SENTIRMOS PRESAS AOS PADRÕES PRÉ-ESTABELECIDOS
CHEGA DE OLHAR PARA AMIGA SOLTEIRA INDEPENDENTE COM SAUDADE DO SEU TEMPO. SEU TEMPO É HOJE
CHEGA DE OLHAR PARA A AMIGA CASADA E COM FILHOS COMO SE ISSO FOSSE O IDEAL, O “NATURAL” PARA VOCÊ.

Socorro!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!


Aqui fica o MANIFESTO DA SOLTEIRICE DA MULHER SOLTEIRA INDEPENDENTE. Seja você, a de ontem, a de hoje e a do futuro.


Conselho para as amigues: Caríssimas leitoras, REIVENÇÃO é a palavra de ordem! Portanto, dá uma boa arrumada na casa, em você e na sua cabeça. Bota pra fora e apresenta para o mundo a mulher independente fantástica que você é e talvez esteja escondida debaixo de tantas obrigações e imposições. Será que precisa ser tão maçante mesmo? Eu acho que não heim… Toda mulher tem uma parcela de mulher solteira independente e isso não está atrelado a idade e muito menos ao estado civil. Acorda gata! Mia por ai que a gente adora mulher que mia. Extrapola esse cio. Exerça sua solteirice independente já!

Dica para os nossos leitores fofoletes: O Manual não tem nada a dizer para vocês neste manifesto, apenas uma pequeno pedido: não nos atrapalhem!

quinta-feira, 2 de julho de 2015

MANUAL PRÁTICO DA MULHER SOLTEIRA INDEPENDENTE: Episódio "Os OGROS existem, e nem todos são o SHREK"





O problema do ser humano é acreditar e fantasiar momentos. Eu, como um ser vivo dessa espécie não poderia ser diferente, a gente cria sim expectativas e quando vê está numa enorme roubada.
Segue mais um relato para servir de alerta a vocês, amigues leitoras!

Era uma sexta-feira, fim do dia, começo de uma noite que prometia. Sai do trabalho, vinho caro na mão, fui ao encontro do bruto na casa dele, ele não estava. Liguei e ele já estava a caminho, então fui em direção ao mercado para comprar os quitutes para fazer o jantar, sim, eu com toda a minha fofice feminina queria exibir meus predicados culinários na cada do bofe. Um jantarzinho a dois home made... vinho...embalaria nossa noite tão esperada.

Menu: penne com molho de gorgonzola (Receita minha, meio que criada por acaso, mas que fica dos deuses, como eu não podia fazer feio... apelei logo para um prato que eu dominava fazer, regra número um para quem quer ostentar girls!)

Enfim o bruto chegou, me encontrou no mercado, me deu um selinho, e saiu andando na frente porque queria comprar umas coisas, todo apressado, não conversou comigo, nem empurrou o meu carrinho, se posicionou andando na frente eu fui andando atrás, meio que pra acompanhar...me senti vestindo uma burca invisível... era o presságio de uma noite daquelas, mas preferia dar uma chance. "Ele poderia estar estressado" pensei. Decidi relevar.

Depois , na fila do caixa ele esperou minha grana para pagar a conta, tirei metade da conta. Fiquei meio ressabiana mas ok, paguei. No entanto, cá pra nós, acho que no mínimo deveria rolar dele arcar com toda despesa, já que eu estava com um vinho caro na mão e ainda iria pra cozinha fazer jantar... alou! Cama, comida, roupa lavada e supermercado pago logo no início da relação???? ). Deus continuava me mandando sinais e eu preferia não fazer nada. Na minha cabeça só passava a frase que uma amiga vivia me dizendo "o que a gente não faz por um pau?"

Pois é.

Ele pegou as sacolas e fomos pra casa dele, o assunto conversado ao longo do trajeto? A canseira dele, o trânsito horrível, um blá-blá-blá totalmente irritado, um tom meio deprê, mas ok... ele pegou engarrafamento e tava precisando relaxar (pensei). De novo a mulher solteira independente na sua máxima fofice aguenta em nome de um bem maior: sua satisfação sexual.

Chegando lá, festa com o cachorro que se encontrava deveras saudoso, o bruto muda o tom de voz, vira uma pessoa meiga, afinal de contas os brutos tb amam... rs. Ele tratou melhor o cachorro do que a mim. E tipo, ele até então, havia demonstrado muito interesse na minha pessoa. Naquele momento eu queria ser o cachorro.

Ele me deixou na cozinha, não falou nada, nem me apresentou a casa (era minha primeira vez ali), era como se eu já estivesse acostumada com o lugar, ficou mais ou menos 30 minutos do lado de fora com o cachorro, e eu lá, picando cebola... e eu continuava querendo ser o cachorro. rs
Ele voltou, eu pedi que colocasse uma musica e abrisse o vinho. Ele pôs LOBÃO, um horror barulhento, e enquanto eu fazia o jantar ele não sentou na cozinha sequer pra me fazer companhia, silencio quebrado só pelos gritos do Lobão... eu quieta na minha, vou falar o que nessa hora? Correr? Era o que eu deveria ter feito e eu fiquei, pasmem vocês. Mulher solteira independente tem seus momentos de burrice.

O jantar ficou pronto, ele abriu o vinho... dai você imagina uma mesa posta, com umas taças e tal? Isso só se for por conta da sua mente... porque ele afastou um monte de tranqueira que tava na mesa da cozinha, pegou um banquinho, sentou, segurou o prato feito um peão de obra e engoliu a comida, com a cara enfiada no prato, não conversava comigo. Às vezes soltava uma frase ou outra, eu olhava pra ele e ele dizia que era da música... dai ele me mandou a pérola "aprendi com uma amiga minha que a gente deve elogiar comida de mulher, elas gostam de ouvir isso, olha o seu macarrão até que tá bom!"

Jesus me chicoteia! Por que eu não estou em casa usando meu vibrador, por quê?????

O que eu fiz? Olhei com cara de pasmada, ele riu, disse que era brincadeira, mas mesmo assim... fala sério...completamente fora de contexto.

(a noite que antes estava prometendo começa a me assustar, um circo dos horrores se armava ali na minha frente)

Terminado o jantar ele lavou a louça (ainda bem, ponto para o bruto, rs), falava umas coisas sempre reclamando de tudo, do cansaço, das aulas que assistiria no dia seguinte, eu tentava falar responder com positividade, travar um dialogo, tudo em vão dai... 1h depois, ele pergunta se eu quero tomar banho, eu fui, já tava meio alta do vinho, não dava pra ir embora, o ogro morava em um lugar ermo e eu sem carro... não não tinha como escapar. Eu já me sentia em cárcere privado e no corredor da morte, quer dizer, do sexo compulsório.

Terminado o banho, tudo em ordem, lingerie, camisola, perfume, cabelo...

Ele entra no banho, demora um pouco, resolvo deitar, (eu tava morta de cansaço), ele chega, apaga todas as luzes, e deita ao meu lado, o silêncio só era quebrado quando ele falava com o cachorro (uma labrador lindo e enorme babento), que tinha completo acesso a toda casa, inclusive ao quarto.
Ele virou pro meu lado, me beijou, daqueles meio sem sal, talvez tímido ou meio seco, pulou em cima de mim, pau duro, tirou minha calcinha, minha camisola, tudo no silencio, eu só ouvia a respiração do cachorro que assistia tudo praticamente de camarote, só faltou a espumante ser servida pro coitado que a essa altura tava com o micro piru canino duro.

Depois de ter mudado de posição 2 ou 3 vezes, fiquei cansada de participar daquela experiência arrerorizante orquestrada por aquele OGRO. Até que enfim ele gozou, virou pro lado e foi dormir.
Êpa, Êpa, Êpa...acorda ai rapaz! 1 a zero não pode!

Com todo charme me cabe pedi pro carinha me fazer um carinho e sexo oral naquele momento seria o mais adequado. Pelo menos isso né? Pois é... entre um grunido e outro o filho-da-puta ntre simplesmente negou!

Fiquei chocada! Como assim??? Helllooooooo!

Ele dormiu, roncou, o que fazer agora? Tomei a ultima taça de vinho que estava ao meu lado, e dormi puta da vida, era cedo ainda, umas onze da noite.

No meio da madrugada o ogro acorda, brinca com o cachorro, levanta, barulho na rua... nada demais, ele volta, me abraça meio estranhamente e volta a roncar, eu perguntei o que estava havendo, ele apenas diz que não era nada e pede um carinho "hum, faz um carinho ai..."

Ele dorme o justo sono dos ogros e eu lá... mal comida que dava pena de ver! Senti um misto de raiva e pena de mim e jurei, como Scarlet Ohara no filme O Vento Levou "nunca mais sentirei fome, nunca mais".

Dia seguinte, 7 da manhã toca o despertador, eu acordo, ele acorda reclamando, esbraveja, fala docemente com o cachorro, "Cadê o filho do papai? Filho lindo do papai, pega o chinelo pra papai"... e por ai vai...

Eu lá, me espreguiçando, nua, ele nem olha, não tá nem ai... era como se eu não estivesse. Ele vira pra mim, e diz "bom dia, você tem só mais 5 minutos pra descansar, temos que sair logo, eu tenho aula"

Ele levanta, vai tomar banho, eu começo a juntar as minhas coisas... ele sai do banheiro, brinca com o cachorro, e depois fala comigo na mesma entonação autoritária, eu rio por dentro, (aonde eu fui parar? Eu quero sumir, ou melhor, eu quero morrerrrrr)

Movimentos bruscos e apressados no corre-corre num sábado de manhã e eu lá, atrapalhando o cara no meio do caminho, do corredor da casa... bem, foi assim que eu me senti, uma intrusa.
Ele vai levar o cachorro pra passear, eu já arrumada e morta de sono me deito no sofá da sala e cochilo, ele chega, e fala pro cachorro "ih filho, ela mimiu"

Ele entra, me da um selinho e diz "VAMOS" (único momento de ternura depois da noite enrascada na qual me enfiei)

Eu levanto, pego minha bolsa e me encaminho pra saída, o portão do lado de fora.Eu de óculos escuros enormes desses que tampam a cara toda, fico na minha olhando pela janela, tempo nublado e eu com aqueles óculos gigantes, agora já descobri outra finalidade para os óculos grandes: tapar a vergonha de si mesma!

Ele vem conversando comigo,enfim travávamos um diálogo... papo meio bobo...ele sempre tentando me desafiar, me alfinetar sabe?

Pensei comigo "puta-que-pariu, o cara não me come, não me fode, não me faz gozar e ainda zoa com a minha cara?"

Chegamos em casa, ele para o carro na minha rua e me dá outro selinho e agradece a noite maravilhosa,

oi?
que noite?
que maravilhosa?
pra quem?

Durante a despedida, eu falei secamente "ainda bem que ontem foi o dia do beijo, eu nunca fui tão beijada... (pausa) pelo seu cachorro"

Ele riu e disse que era a forma de dizer seja-bem-vinda.

Dai, eu repliquei em tom irônico: "com quem será que ele aprendeu a ser assim? com o pai dele certamente não foi"

Eu ri... e bati a porta do carro com toda violência que me era devida, atravessei a rua, e ponto final.
Ele virou tema de post, agora do Manual Prático da Mulher Solteira Independente e nunca mais olhou na minha cara. Esse ebó eu já despachei. Amém.


Conselho do Manual para as amigues: Vejam o filme "E o Vento Levou". Na hora que os sinais começarem a surgir corram. Não deem chance para a sorte, ela pode não chegar e você ser a mal comida da vez. Parem de relevar, parem de ser condescendente, parem de falar mal dos homens, se eles te tratarem mal simplesmente saiam de perto deles! É simples. Façam tudo diferente do que o relato acima contou. Arrume um vibrador, um amigo-fofo-tipo-pau-amigo, ou coma muito chocolate. Se vira. Não deixe NUNCA alguém te tratar de forma subalterna ou da forma que você (ou qualquer ser vivente) merece ser tratado. ok?

Carência tem limite. Se nada disso der certo arrume um terapeuta. Ajuda muito.

Dica do Manual para você homem-Ogro: Sem dicas, vá tomá no seu cú, e o que a gente deseja pra você é uma grande impotência sexual. Só isso. Seu merda.

Se você for fofolete nem precisa de dicas né? A gente te ama, a gente te quer, a gente vai cozinhar pra você e usar lingerie.


Adendo: Para os interessados... eu já me encontro bem comida, obrigada. Afinal de contas, a fila anda...no meu caso, de Ferrari.