sexta-feira, 13 de junho de 2014

Torcedor se anima para a Copa na última hora e movimenta comércio no Rio

Na Saara, lojistas chegaram a triplicar o faturamento e, em supermercados, aumento nas vendas surpreendeu

por


 RIO - Em uma Copa marcada pelo dilema entre torcer pela seleção ou protestar contra os gastos públicos para a realização do evento, o carioca resolveu se empolgar — e consumir — na última hora, pouco antes de a bola rolar para Brasil e Croácia. Essa foi a percepção de lojistas e associações comerciais ouvidos pelo GLOBO, que começaram o ano pessimistas, mas já calculam um aumento de até 15% no volume médio de vendas em relação aos dias normais, só na semana da estreia.

Segundo a maioria dos comerciantes, a maré de consumo começou ainda na semana passada, com a aproximação da abertura do Mundial. Foi o caso do Atacadão da Biju, na Saara, principal centro de comércio popular do Rio, que vem apostando nos produtos relacionados à Copa, mas só viu o resultado mais significativo do investimento a partir do dia 30 de maio. Na última semana, segundo a gerente Luana Sanches Cardoso, o faturamento mais do que triplicou em relação a dias normais: de R$ 7 mil para R$ 25 mil por dia.

— Investimos muito. Nosso patrão já está viajando para comprar mais produtos — conta Luana.
Parte do sucesso da loja se deve à propaganda que, em ano de Copa no Brasil e muitos turistas nas ruas, apostou em uma estratégia diferenciada: um locutor bilíngue. Em uma das esquinas mais movimentadas do centro comercial, Nei Lopes capricha no inglês: “Don’t waste your shoes! Don’t waste your shoes!”, um chamado para que o consumidor “não gaste mais seus sapatos” e resolva comprar ali mesmo. Nei arrisca também o espanhol, e afirma que já “arranhava” as duas línguas há um tempo e resolveu aproveitar para atrair os estrangeiros (e até brasileiros).

— É a necessidade. Mesmo que não seja perfeito, está valendo — afirma ele.



O clima de festa incentivado por animadores como Nei, aliás, deve ser o principal aliado para que o comércio continue a vender. Segundo Enio Bittencourt, presidente da Saara e no ramo desde a Copa de 1974, a expectativa para os dias deste Mundial já estava baixa, mas, na última semana, viu um crescimento de 15% no volume de vendas, ainda aquém das projeções iniciais.

— Houve uma reação. Mais ou menos 15% (de aumento), tanto de público como de vendas. Esse ano, foi tudo muito em cima da hora. De todas as Copas, essa tem sido a mais fraca — diz Enio, que estima que, nos outros torneios, o comércio viu um aumento, já no início, de 25% a 30% no volume de vendas.
Ainda assim, a Saara espera um aumento de mais 10% no volume de vendas até o fim da competição, resultado que depende da atuação da seleção ao longo do evento.

— A gente já havia traçado esse cenário sobre o comércio por causa de dois fatores: um número muito expressivo de turistas na cidade e outro que não sabíamos quando ia acontecer era o brasileiro entrar no clima da Copa. Mas bastou a bola rolar para isso acontecer, todo mundo na rua animado e querendo virar a página dessa polêmica em torno da Copa. Não adianta, o brasileiro ama futebol, as manifestações estão esvaziadas e, a seleção indo bem, esse movimento só vai aumentar. Apesar de todos os feriados, o comércio do Rio vai fechar este mês com resultado positivo — diz Christian Travassos, gerente de economia da Fecomércio-RJ.

Na capital paulista, sede do primeiro jogo da Copa, não foi difrerente, disse Marcel Solimeo, economista-chefe da Associação Comercial de São Paulo. Segundo ele as vendas que estavam fracas deram uma animada a partir do começo de junho.
— Nos últimos dias, aumentou bastante, mas quem acompanhou as Copas anteriores novata um movimento maior com muito mais antecedência. Se o Brasil continuar indo bem, as vendas vão aumentar mais. Os produtos da Copa porém, pesam pouco, porque são de baixo valor e dificilmente vão compensar as perdas grandes com as paralisações de vendas nos dias de jogos do Brasil.

RESULTADOS PODEM INFLUENCIAR GASTOS

Solimeo explica que os produtos realmente necessários, as pessoas acabam comprando em outros dias, mas as chamadas vendas por impulso (roupas, calçados, livros) acabam perdidas de vez. Quanto ao fluxo de turistas, ele pondera que em São Paulo o forte é o turismo de negócio que está praticamente parado e será, no máximo, compensado pelo turismo da Copa.

Hilaine Yaccoub, antropóloga e professora de Comportamento do Consumo da ESPM também não se surpreendeu com essa mudança no ânimo das pessoas.
— A gente vem de uma época de muito desânimo, muita cobrança por todas aquelas questões dos protestos. Mas quando chega perto do evento em si nosso patriotismo fala mais alto e as pessoas saem correndo para comprar na última hora. A gente sabe que tem muita coisa errada, mas quando a seleção entra em campo é o país que está ali, é a pátria de chuteiras mesmo. Não tem ninguém que desconstrua isso, está no nosso DNA — diz.

A professora diz também que o brasileiro gosta de resultado e, se a seleção for bem, as pessoas vão gastar mais. Se depender da dona de casa Denize Luiz Sequeira, Neymar e companhia precisam mostrar mais serviço para fazer com que ela continue a gastar. De brinco verde e amarelo e em busca de uma camisa da seleção para o neto em uma das lojas do centro popular, ela conta que já gastou cerca de R$ 100 em decoração, mas só começou a comprar há dois dias.
— Nas outras, estava mais animada — conta dona Denize, aproveitando para cornetar o técnico Felipão: — O Fred pode até ser muito bom, mas só no Fluminense.

SUPERMERCADOS VEEM ALTA DE 9% NAS VENDAS

Além da corrida para comprar bandeirinhas, cornetas e perucas nas cores da bandeira nacional, o torcedor brasileiro também foi aos supermercados para comprar, no último minuto, petiscos e bebidas para assistir ao jogo pela TV. O movimento pegou os supermercados de surpresa, segundo a Associação de Supermercados do Estado do Rio de Janeiro (Asserj).

— Segundo dados preliminares, houve crescimento entre 8% e 9% em relação ao volume de vendas em dias normais. Surpreendeu. Esperávamos alta de 4% a 5% — conta Ailton Fornari, presidente da Asserj.

Para Fornari, no entanto, o desempenho do segmento está melhor do que o registrado em outras Copas, principalmente por causa da quantidade de turistas na cidade, já que a Copa é no Brasil.
O taxista Julio Gomes da Silva foi um dos responsáveis por engordar o faturamento dos supermercados. Pouco antes da estreia do Brasil nesta quinta-feira, ele resolveu fazer as compras em um pequeno mercado na Vila da Penha, mas desistiu: segundo ele, as filas estavam insuportáveis. A solução foi pedir à esposa, que trabalha em um Prezunic, levar pão, refrigerante, suco e outros itens para a festa. No total, ele calcula ter gasto R$ 120 só com o jogo de estreia.

A vitória, no entanto, pode fazer com que ele resolva abrir a carteira:

— O pessoal está se animando em cima da hora. Talvez no próximo jogo eu faça um churrasco.
Bares e restaurantes também já estão lucrando com a animação, mas, enquanto os próximos jogos da seleção não chegam, alguns preferem continuar contidos. É o caso de Sérgio Araújo, um dos donos do bar Praia de Nazaré, bem próximo ao Alzirão, tradicional ponto de encontro da torcida carioca. Preocupado com o clima político e a possibilidade de manifestações semelhantes às que marcaram a Copa das Confederações, no ano passado, ele diz que é cedo para dizer que houve crescimento.
— O investimento foi de R$ 3,5 mil e o lucro, correspondente às expectativas — afirma.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Uma aventura antropológica na Barreira do Vasco:Na convivência com moradores da favela, doutoranda descobre o mundo das redes de compartilhamento




Hilaine e seus vizinhos do Beco da Eunice, na Barreira do Vasco -
Foto: Gustavo Miranda / Agência O Globo

Hilaine e seus vizinhos do Beco da Eunice, na Barreira do Vasco
RIO, 10 (AG) - A antropóloga Hilaine Yaccoub se mudou de mala e cuia, em 2012, de Niterói para a Barreira do Vasco, em São Cristóvão, com a intenção de estudar a lógica por trás dos "gatos". O tema era sua tese de doutorado em antropologia na UFF. Mas, na convivência com os moradores, acabou descobrindo o maravilhoso mundo das chamadas redes de compartilhamento. Traduzindo para o dia a dia, é aquela velha história de cidade de interior. Se o seu vizinho já tem uma batedeira, para que comprar uma? Para que pagar por uma roupa de casamento se consigo uma emprestada? Hilaine observou que na favela é assim: praticamente tudo é dividido, desde água, pontos de TV a cabo, sinal de internet, panela de pipoca e vestidos de festa à educação das crianças. Sem falar na comida. Nestes dois anos morando ou mantendo um escritório na Barreira do Vasco - hoje, ela tem uma quitinete na favela, que usa para estudar -, Hilaine, de 36 anos, engordou cinco quilos. Culpa das panelas dos novos amigos, dos churrascos no beco (oficialmente Beco Eunice Rodrigues, onde fica o seu quartinho) e dos copinhos de Guaravita, um vício que adquiriu na Barreira do Vasco.
Essa vida comunitária, documentada em oito caderninhos de campo, provocou uma reviravolta na pesquisa de Hilaine, que mudou seu objeto de estudo em janeiro deste ano. Agora, ela se prepara para defender no primeiro semestre do ano que vem a tese "Lições da Favela - as Economias de Compartilhamento de Bens e Serviços na Barreira do Vasco". Hilaine, que é originalmente de São Gonçalo, se divide hoje entre a Barreira, seu apartamento em Icaraí, do qual nunca se desfez, e as aulas que dá na ESPM.
- Todos os estudos e pesquisas falam da precariedade das favelas. Mas eu vejo o lado cheio do copo. No meu trabalho, falo de algo importante. Para ser da favela precisa compartilhar.
Estudante mora há dois anos na comunidade
Extrovertida, Hilaine Yaccoub cativou a vizinhança. A antropóloga, que gosta de usar o verbo “favelizar” para pessoas seduzidas pela vida na favela (ela aprendeu que na Barreira moradores rejeitam o termo comunidade), é um caso óbvio de quem “se favelizou”. Ela começou a frequentar a área em 2011, por meio de um ex-namorado, cuja mãe era do lugar. No ano seguinte, conseguiu uma casinha e se mudou. Agora, está no seu terceiro endereço na Barreira (com uma pausa de alguns meses no ano passado, quando ficou sem um pouso na área), desde que transformou a favela em seu campo de pesquisa. A quitinete no beco é um exemplo da hospitalidade tratada no seu estudo: diante da dificuldade que é alugar um imóvel no local, onde os acordos são informais e firmados na base da confiança, ela só conseguiu o quartinho graças a uma indicação de Vânia Rodrigues, a Vaninha, presidente da associação de moradores, de quem virou superamiga.
Com o “contrato” de boca firmado, sem que soubesse, o espaço foi pintado de rosa pink pelo dono, Cícero Ferreira de Andrade, que mora na casa de cima:
— As paredes eram lilases. Achei que rosa era a cara dela.
Hilaine se sentiu definitivamente parte dessa família em janeiro, no seu aniversário, comemorado na Barreira. Na hora de organizar a festa, Vaninha disse que só convidaria para o regabofe “os nossos”. Foi o insight que ela precisava para revolucionar sua tese.
Hoje, ela costuma passar três dias da semana na Barreira, sempre observando, anotando e tirando fotos, sendo que algumas são postadas no Instagram e Facebook. Ela fala pelos cotovelos, mas não faz entrevistas com os moradores. O seu negócio é viver a história e traduzir “o que está vendo e sentindo”.
Um dos seus pontos de observação é a associação de moradores. E a presidente da entidade ainda tenta entender o trabalho de uma antropóloga.
— É a primeira vez que conheço uma an-tro-pó-lo-ga — ri Vaninha, dando pausas entre as sílabas. — Até agora não entendi direito o que é isso. Quando perguntam quem é ela, eu falo que é a maluquinha da Hilaine.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/rio/uma-aventura-antropologica-na-barreira-do-vasco-12452317#ixzz31WpOOkZh
© 1996 - 2014. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

A PARTE CHEIA DO COPO

Antropóloga, Hilaine Yaccoub relata a experiência de viver na Barreira do Vasco, base de sua tese de doutorado
COLUNISTA CONVIDADO(A): HILAINE YACCOUB
FOTO: ARQUIVO PESSOAL
FOTO: ARQUIVO PESSOAL
Muitos me perguntam o que faz um antropólogo, e de forma simplista costumo responder que somos tradutores culturais. Explico. A antropologia nasceu com a curiosidade de físicos, botânicos, historiadores etc em conhecer os povos chamados ‘primitivos’ na época das navegações. Aquela ‘gente exótica’, que se vestia diferente, falava outra língua, tinha umas expressões curiosas… até que em dado momento, em vez de achar tudo engraçado ou amedrontador, alguns começaram a querer entender o que motivava aquelas pessoas, quais as suas lógicas de ação, crenças, valores. Aí surge a antropologia, ciência que procura entender e interpretar outros universos sem fazer julgamentos para depois traduzir estas relações.
Procurar povos distantes foi o primeiro passo desse fazer antropológico. No entanto, anos mais tarde, já no início do século XXI, pesquisadores levaram essa forma de ver pessoas e culturas para dentro das cidades. Não é difícil perceber que dentro do nosso bairro, estado ou cidade há grupos que se diferenciam entre si, se vestem diferente, se divertem de formas plurais e vivem a vida de maneiras distintas. Assim, estamos perto e longe ao mesmo de tempo, convivemos com eles e muitas vezes não conseguimos enxergar a riqueza cultural ali traduzida.
Assim ocorreu comigo quando iniciei meu trabalho de investigação na Barreira do Vasco. Alguns amigos se assustaram, porém com o passar do tempo, foram vendo que existe sim uma forma nebulosa de ver essas pessoas. Posso dizer que desde janeiro de 2011, quando fui para lá, nunca encontrei tanta solidariedade, senso de agregação e valor humano nas favelas que conheci. Com a entrada das UPPs e o avanço das empresas, empresários se interessaram pelo filão, promovendo e propondo negócios sedutores, como se moradores de favelas fossem novos índios, ingênuos, vítimas que seriam resgatados e civilizados para o consumo. Bobagem. As pessoas sabem muito bem o que querem e possuem uma racionalidade própria de avaliar custo e benefício — o grande desafio para esse mercado. Para falar para os de dentro é preciso estar lá.
Antropólogos têm sido chamados para os mais variados trabalhos no campo do entendimento do comportamento do consumidor. O que acabei aprendendo é que muita gente descreve, mas pouco se explica. Como estudo acesso e consumo de serviços públicos, só estando lá dentro entendo o drama que é ficar sem luz a noite inteira, sendo mordida por mosquitos, sem água (a bomba não funciona), entretenimento (TV) e sofrendo comum calor absurdo. Da mesma maneira, só estando lá pude partilhar a alegria do retorno da luz ao gritar de felicidade junto aos meus vizinhos, como se fosse gol do Brasil. Ninguém me tira o que vivi. O que pretendo com a pesquisa é demonstrar quão rico pode ser o olhar para um determinado grupo ou lugar se fizermos de um jeito diferente. Em vez de olhar a parte vazia do copo, faço um convite: olhe para a parte cheia.
FONTE: http://blogs.odia.ig.com.br/guia-das-comunidades/2014/03/10/a-parte-cheia-do-copo/

segunda-feira, 7 de abril de 2014

CULTURELAB EM SALVADOR: muita pimenta de cheiro e conteúdo

Mais informações acessem http://feijaodecordaprodutora.com.br/cursos/consumerinsightsi/

Mulher e conforto: meu ponto de vista no site Mundo do Marketing

Mulheres desafiam marcas a aliar moda e conforto

Empresas tradicionalmente voltadas para o bem estar já incluem design e tendências em seus produtos, enquanto as fashions aderem à funcionalidade para atender a essa demanda

Por Luisa Medeiros, do Mundo do Marketing | 07/04/2014

luisa@mundodomarketing.com.br

A busca por itens confortáveis é uma demanda cada vez mais frequente entre as mulheres. Sapatos, lingeries, roupas e bolsas que mantêm uma relação direta com o corpo durante todo o dia precisam reunir outros atributos além de beleza, que se mantem indispensável, para conquistar uma parcela crescente deste público. O design e a moda passam a agregar bem estar, tecidos leves, produtos sem costura e saltos moderados como companheiros nessa tendência. Essas demandas desafiam as marcas com foco no fashion a desenvolverem também linhas mais confortáveis. Em paralelo, as empresas que já nasceram focadas nos aspectos funcionais de suas peças incluem elementos estéticos contemporâneos para alargar seu alcance.
As lingeries maiores e os sapatos de saltos baixos, feitos em couro macio, fechados por velcro e tingidos em tons neutros eram duas peças clichês do típico figurino da vovós, mas algumas empresas começam a se reposicionar apostando em elementos da moda como estampas da estação, saltos e aplicações de bordados e metais. A partir dessa reformulação, as peças se tornam presentes também nos guarda-roupas de mulheres mais jovens, o que provoca uma mudança na percepção de marca. Isso acontece especialmente quando entra em cena uma mulher com multifunções e que passa um período cada vez mais longo fora de casa.
Nesse cenário, a demanda por produtos apenas bonitos começa a dividir espaço com a busca por qualidade de vida. Elas não abrem mão de se sentirem bonitas, mas não estão mais dispostas a grandes sacrifícios para se vestir no cotidiano. “O conforto é relacionado ao bem estar. A vida está cada vez mais em movimento: estudo, trabalho, casa, happy hour e ainda tem a atividade física. A percepção sensorial da roupa ganha importância. Elas querem ter prazer no toque de um tecido ou em um calçado”, aponta Hilaine Yaccoub, Professora de Antropologia do Consumo e Comportamento do Consumidor da ESPM Rio, em entrevista ao Mundo do Marketing.
Perfil urbano desafia marcas de moda
Esse é um paradigma que vem se estabelecendo junto à mulher urbana atual e contrariando tudo o que se sabia sobre consumo de moda feminino. Historicamente, as roupas e acessórios delas sempre foram ligados a uma certa dose de desconforto. As “mulheres girafas”, de Angola, que colocam dezenas de argolas no pescoço, as chinesas que apertavam os pés em sapatos bem menores e as europeias que modelavam a cintura com espartilhos de osso são alguns exemplos. “Existe um perfil de mulher que não está mais disposta a verdadeiras torturas. Elas acabam se aproximando de marcas com características que se adequem a suas necessidades e não mais o contrário”, diz Hilaine Yaccoub.
Se antigamente as pessoas se moldavam a um único estilo, o desafio atual para as marcas é satisfazer o consumidor em meio a tantos estilos e opções agregando conforto a todos. Pequenos detalhes se tornam decisivos, e a noção de bem estar passa também pelas tecnologias presentes na confecção dos produtos. “Antes o consumidor tinha poucas opções e se adequava a padrões impostos pelas marcas como tamanho do salto, numeração e tipo de tecido”, avalia a Professora da ESPM.
O novo comportamento inspirou marcas como Loungerie a desenvolver uma numeração personalizada para peças íntimas. A Trifil por sua vez, criou cintas e shorts para debaixo da roupa, camisetes e lingeries sem costura que disfarçam decotes, transparências e não marcam o vestuário. Marcas como Mr. Cat e Outer também entraram nesse movimento e apostaram em linhas comfort.  A Uncle K desenvolveu uma linha de bolsas sociais que se transformam em mochilas para comportar um maior volume de objetos e ao mesmo tempo amenizar o impacto do peso para atender a mulher moderna que alterna sua forma de vestir de acordo com o momento do dia.
Outro exemplo é a Usaflex, que produz sapatos ergonômicos e já tinha um bom relacionamento com as consumidoras idosas. Recentemente, no entanto, percebeu que as filhas e netas também queriam conforto e modernizou suas linhas. “Pelo SAC, percebemos que a faixa etária das mulheres interessadas nos produtos diminuiu. Elas estavam carentes de se sentirem confortáveis a qualquer hora do dia. Então lançamos produtos novos com referências de moda”, conta Bianca Gallas Carniel, Coordenadora de Marketing da Usaflex, em entrevista ao Mundo do Marketing.
Educação do cliente
As empresas precisam levar em conta que a percepção de conforto é relativa e varia de pessoa para pessoa. O conceito assume várias faces na mente do consumidor. Elas mudam de acordo com as experiências pessoais. Apesar das consumidoras desejarem mais conforto, o repertório que possuem de produtos com essa função ainda está relacionado a um perfil de peças sem preocupação com design, como os que eram ofertados pelas marcas até pouco tempo atrás. Diante disso, um tabu ainda resiste: o de que aquilo que é confortável é feio.
Essas barreiras geram uma contradição entre a busca pelo conforto e a dificuldade que muitos clientes ainda sentem para realizar o consumo habitual de produtos com essas características. Isso acontece porque a moda exerce um papel social que vai além do utilitário e que muitas vezes prevalesce. É aí que acontece um embate e o conceito de conforto se altera. “A questão vai além do objeto em si. Na nossa sociedade, que significado tem uma calça jeans que deixa o corpo em evidência? E o salto alto? Existem contextos em que estes códigos são vistos como valiosos. Há mulheres que enchem os pés de esparadrapos e mesmo assim mantém o salto”, avalia Hilaine Yaccoub.
Por isso, se a intenção é fazer do bem estar o diferencial de um produto, a educação do consumidor deve receber uma atenção especial. “O caminho é conversar com quem vai usar o produto para conhecer as suas demandas. A equipe de vendas tem que estar bem treinada para informar sobre as tecnologias e utilidades da peça. Sobretudo, o vendedor tem que ter feeling para ouvir o cliente quando ele diz que o produto tem conforto, mas ainda não tem design que o agrade, por exemplo. Para obter este retorno, é necessário persuadir o cliente ao provador” diz Elias Frederico, Professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas, em entrevista ao Mundo do Marketing.
Experimentação gera valor
A experimentação tem papel fundamental na construção de familiaridade com a marca e geração de valor sobre o produto. Mas para que a mulher chegue a experimentar existem basicamente duas motivações possíveis: uma insatisfação prévia ou uma abordagem eficiente no ponto de venda que ensine sobre o conforto e ofereça alternativas contextualizadas com o estilo pessoal. “Eu mesma, não conhecia a Loungerie, até que uma amiga me recomendou. Quando entrei na loja a vendedora me mostrou a linha básica, que tem mais a ver comigo, tirou minhas medidas e eu amei. Comprei quatro peças no mesmo dia e me desfiz de todas as que eu tinha antes”, conta Hilaine Yaccoub.
A Usaflex investiu em uma publicação distribuída para as clientes nos pontos de venda para informar seu posicionamento modernizado. Uma revista traz mulheres jovens e vestidas de forma moderna. O conteúdo conta com fotos dos sapatos que vão de scarpins de salto com estampas de bichos, mocassins e até botas, além de dicas de cuidados com os pés. O ponto de destaque da comunicação é um estatuto que lista 10 direitos para as mulheres relacionando estilo, beleza e conforto. “Toda mulher tem direito a uma grande festa para aproveitar, sem ter que escolher entre um calçado deselegante ou torturante” é um dos tópicos apresentados na publicação Direitos da Mulher ao Conforto da Usaflex.
Equilíbrio entre beleza e função
A medida buscada pelas mulheres é a combinação entre o bem-estar e o estilo. Porém, apesar das inovações no segmento, quando o uso sai do cotidiano, surgem dificuldades em encontrar produtos funcionais para ocasiões especiais. O conforto também está diretamente relacionado ao momento de uso do produto. “As mulheres tendem a utilizar roupas mais confortáveis no dia a dia, mas quando se trata de uma ocasião comemorativa, mais formal ou sensual, elas priorizam o visual. Para esses momentos, se a roupa for mais confortável e ainda assim deixar a pessoa bonita, tudo bem. Nestas ocasiões, no entanto, a prioridade é da estética”, analisa o Professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas.
O caminho talvez esteja em aproximar os hábitos de moda já presentes na vida das mulheres e os novos elementos que tragam conforto para as peças. A intenção é fazer o conforto belo. “Não vemos marcas resplandecerem com a proposta de que a mulher use moleton, camisetas e calças largas e calcinha de algodão, por exemplo. Porque não vemos mulheres assim na rua. É preciso ser prático. Ninguém sai na rua de pijama só porque é mais confortável. Beleza é sim fundamental. A estética contemporânea precisa ser mantida. As roupas são mais ajustadas e temos a popularidade do jeans, mas se isso puder vir aliado a tecnologias que as tornem mais confortáveis será melhor”, complementa o Professor da FGV.
Os sapatos da Usaflex não mudaram sua essência, continuam atendendo aos mesmos pré-requisitos de conforto como ergonomia, materiais e altura. Porém, na inauguração da marca, em 1998, seu público alvo tinha mais de 60 anos e, atualmente, se estende para consumidoras a partir dos 25 anos. O que mudou foi a aparência. “As mulheres querem colocar o sapato no pé de manhã e tirar a noite sem desconforto. Elas querem que o produto seja versátil e sirva para as suas várias atividades ao longo do dia. Elas querem as tendências no cotidiano com a novidade de ser confortável”, comenta a coordenadora de Marketing da Usaflex.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Alou Floripa, estou chegando ai! 14 e 15 de março - ConsumerLab



A Antropologia do consumo investiga as práticas e as representações do consumidor contemporâneo, peça central na sociedade em que vivemos, a sociedade de consumo.

Desafio: Você conhece mesmo a cabeça do seu cliente? Você sabe quais são os seus valores, os seus sonhos e o que mais importa pra ele na hora de escolher um produto e serviço? Você entende a diferença entre necessidade e desejo?

Se você respondeu com uma certa dose de dúvida a alguma dessas perguntas está na hora de parar e estudar. PARE TUDO AGORA E VAMOS RECICLAR.

A Antropologia é muito mais do que uma cadeira da universidade, é uma curso que tem como princípio entender o outro, traduzir sua lógica de pensamento e por conseguinte suas ações para outros grupos, no caso, nós, os estrangeiros que desejamos entendê-los para melhor nos comunicarmos.

A Antropologia nos ensina o que, como, de que maneira, podemos falar (nos comunicar) e aprender com as atitudes dos aborígenes

·         1) Aprendendo a re-enxergar ou como ser um mexeriqueiro profissional.  A aula tem como objetivo apresentar alguns conceitos e táticas (etnografia) para aprender a olhar o “outro”, no caso, o consumidor e relativizar sua forma de pensar e agir.

·         2) Hierarquia das necessidades: Você sabia que nada é supérfluo e tudo é relativo? Os nativos sabem.

·         3) Vamos enterrar Maslow? O funk ostentação contradiz o famoso teórico, e dizem que o funk não serve pra nada. Tolinhos!

·         4) Nem tudo é só status. Ter está para além de mostrar... Formação de gosto na teoria de Pierre Bourdieu.

     E se der tempo... um plus:
·         5) Consumo como prática ritual. Nem tudo que você tem é seu. Duvida? A gente te mostra o processo ritual na formação da posse.

Inscrições com renata@vilaj.com.br

domingo, 9 de março de 2014

Relato de uma antropóloga




Matern(idade)


por Rosana Pinheiro-Machado


"Eu sou aquela mulher que tem precisamente trinta e pouquinhos anos. Quando
entro em um flerte, eu tenho trinta; quando estou no trabalho, trinta e
cinco. Nesse meio termo, eu defino a minha idade, sempre imprecisa,
relativa e contextual. Eu penso que a compreensão do tempo é mais
complexa do que os dias contados pelo nosso calendário. Eu me calculo por estações, amores, viagens. Quanta variação entre meus trinta e trinta e cinco anos!…


Nos últimos tempos, realizei algumas falas acadêmicas sobre minha
trajetória e, por incrível que pareça, arranquei, ao invés de aplausos,
lágrimas. Nelas, eu não contava a trajetória de franco sucesso de uma
jovem professora de Oxford. Eu apenas reconhecia que, aquilo que aqui
vamos chamar de “sucesso profissional” (que significa basicamente
alcançar os objetivos traçados), foi conquistado às duras penas. Mas não
vou começar com o discursinho da self-made-woman. É bem diferente
disso. Duras penas aqui significa que eu simplesmente tive que abrir mão
de grande parte da minha vida pessoal. E certamente ecoou na plateia
feminina que ser antropóloga de trabalho de campo às vezes não é tão
simples assim. Entre tantas outras profissões que exigem mobilidade
(especialmente em um contexto que aponta cada vez mais para a
flexibilidade e precariedade dos contratos de trabalho).
As mulheres podem conciliar sucesso na vida profissional e vida amorosa, é claro.
No meu caso, não era possível. Sai de casa aos vinte e cinco e já se
foram desde então cinco países, idas e vindas e a impossibilidade de
criar vínculos. Eu bem que tentei, eu bem que fiz juras de amor, de
ficar ou voltar, abandonar, simplesmente porque eu queria fingir que eu
era uma mulher “normal” e que eu ia brincar de casinha. Mas a verdade é
que isso não aconteceu. Já doeu, hoje não dói mais.
Eu não sei se foi intencional ou não, mas me tornei assim, gostei de ser assim e,
admito, sou plenamente feliz por ser assim. Não tenho a sensação de que
falta algo na minha vida (exceto dinheiro!). E nesse “nada que me falta”
entra a indagação da maternidade. Até porque, sejamos, sinceros, eu não
conquistei sucesso porra nenhuma. Eu tenho, aos meus trinta e
pouquinhos, que ralar muito para assegurar estabilidade em um emprego
que, no meu caso, é bastante instável e depende de um número desumano de
publicações. E aos trinta e pouquinhos, continuar jogando alto -
simplesmente para manter o que eu tenho – envolve abrir mão de novas
coisas.
Quando eu penso em maternidade, penso que ainda tenho
alguns anos até os quarenta e poucos – idade mais ou menos máxima no
nosso imaginário de poder ser mãe biológica. Assim me pego calculando
para além do meu relógio sazonal flexível que varia dos trinta aos
trinta e cinco. Nesse tal de relógio, não tem relatividade.
Hoje, eu, assim como uma parte enorme das mulheres sem filhos aos trinta, não
penso em ser mãe. Também não acredito que quando o relógio biológico
bater, a vontade vai emergir de um mundo cor de rosas. Pode ser que não
mude nada, mas nossa culpa cristã e o medo do estigma nos obrigam a
mudar de ideia. E tudo isso é muito cruel e perverso.  Eu entendo e
respeito aqueles que dizem que a maternidade é um amor inigualável e
inenarrável. Eu não tenho dúvidas disso. Eu mesma recebi um desses
amores de sacrifício de minha mãe, que abriu mão de muitas coisas para
me criar – como a maioria das mulheres de sua geração. Eu não quero
abrir mão de nada. Quando eu digo que não quero abrir mão de nada, eu
apenas quero dizer: não quero abrir mão de MAIS nada.
Talvez um dia eu queira. Se eu mudar, tenho certeza que eu serei uma mãe muito plena e
babona. Hoje, simplesmente HOJE, eu não tenho a vontade de experimentar
esse amor inenarrável (são tantos amores que eu ainda tenho que
experimentar!). Essa ambivalência e indecisão tem que ser parte do
direito de escolha e não pode apressada pelo machismo-nosso-de-cada-dia
em que tentam me enfiar goela abaixo a ideia de que ser mãe é padecer no
paraíso. Não pode ter hora para essa decisão, porque se nossos óvulos
envelhecerem e sequer podemos congelá-los, temos que lembrar que a
biologia não é tudo e que existem muitas formas de exercermos o direito à
maternidade.
Eu quero ter o direito de, em meio a uma vida de
tantas privações pessoais para chegar perto de onde eu queria
profissionalmente (um ponto em que, diga-se de passagem, teria sido
alcançado por um homem com muito menos privações porque sempre há uma
mulher que abdicará de seus sonhos profissionais para acompanhar os
parceiros), poder escolher. Eu quero ter o direito de continuar me
sentindo jovem e fazer coisas que não fiz quando eu achava que currículo
lattes era uma coisa importante. Eu quero ter o direito continuar
escolhendo a minha idade. Quero dizer que tenho dezoito anos quando
passear de moto por Bali, quando invadir um College de madrugada em
busca de uma pirâmide encantada, quando quebrar a vidraça de um banco ao
sentir raiva do mundo capitalista.
O direito de ser mãe ainda tem muito a ser batalhado em nossa sociedade mercantilizada: direito de licenças, de parto normal, de fazer um aniversário infantil sem
contratar a Xuxa que chegará em uma nave espacial (ou de contratar se
for o caso), o direito de trabalhar, de se locomover, de ser mãe e não
sentir culpa por às vezes ter se questionado sobre isso. O direito que
temos de ser mãe em uma sociedade igualitária e justa é também o direito
de não ser mãe, não por egoísmo, mas pela pura sensação de que ainda há
uma ilha no pacífico para percorrer de moto. Eu não sei qual direito eu
quero, mas sei que quero ter o direito de escolher.
Eu quero ser livre para escolher a minha matern(idade)."

O texto foi originalmente publicado no site da antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, segue o link https://rosanapinheiromachado.wordpress.com/2014/03/09/maternidade/